Escrito em 1513 e publicada em 1532, o livro de Maquiavel, com seus 26 capítulos, pode ser considerado um manual sobre a arte de governar, cujo objetivo era orientar governantes do Renascimento sobre a forma eficaz de agir para garantir o poder.
Maquiavel era um funcionário de cartório em Florença muito observador. Ele percebeu que decretos e violência não eram suficientes para sustentar um governo; era preciso lograr o apoio dos súditos. Defender o poder a todo custo era condição sine qua non para preservar um Estado forte; para tanto, seria razoável o líder lançar mão de todas as armas à sua disposição, incluindo ludibriar, oprimir, torturar e até matar pessoas. Sua máxima era “O fim justifica os meios”.
Na verdade, ele não aprovava o uso da violência como um fim em si mesmo; apenas admitia o seu uso em prol de propósitos mais elevados, como a estabilidade do Estado. Acima de tudo, o que Maquiavel realmente buscava com a sua obra era esboçar um tratado político, discutindo o Principado em termos do que é, quais os tipos existentes, como é adquirido, mantido e por que pode ser perdido.
Primeiramente, Maquiavel descreveu, em O Príncipe, um arquétipo do antigo republicanismo, caracterizado pela crença de que a liberdade individual estava atrelada à liberdade do Estado, o que requeria do cidadão participação ativa através de ações cívicas. A seguir, Maquiavel demonstrou uma quebra na tradição do pensamento político, consequência de uma vida civil de caráter conflitante, marcada por um contexto de intensos e contínuos confrontos de forças sociais. Maquiavel contrapôs-se à ideia hegemônica da época de que o poder era decorrente da vontade divina e afastou a política da teologia e da filosofia moral. Distinguiu duas éticas: a cristã, destinada a salvar a alma, e a política, cujo objetivo era salvaguardar o Estado. Enquanto a primeira era fundamentada em valores absolutos, como bondade, honestidade, lealdade, a segunda admitia o uso de meios escusos, como a violência e a desonestidade, desde que os fins fossem justificáveis. Por fim, Maquiavel discorreu sobre as dificuldades e as necessidades que são impostas a um líder de governo e desenvolveu um novo modelo de ação, o qual foi apresentado a Lorenzo II enquanto um conselho.
Contudo, seu texto foi interpretado nos séculos XVI e XVII como apologia à desonestidade e o termo “maquiavélico” foi usado ao longo dos séculos como sinônimo de esperteza, astúcia, crueldade e deslealdade. Na Inglaterra, o diminutivo de seu nome, “Nick”, era popularmente utilizado para nomear o diabo. Philip Bobbitt comenta, porém, que há escritores que veem suas ideias simplesmente como incoerentes, enquanto outros consideram que estas foram escritas no código da sátira ou de outro gnosticismo.
Em termos práticos, Maquiavel exerceu grande influência sobre muitos políticos desde a sua época até os dias atuais, tornando-se um pensador marcante para as ciências políticas. Hoje ele vem sendo reconhecido como um dos criadores do pensamento moderno, porquanto discorreu sobre o Estado e o Governo de forma realista e não idealista e apontou características de liderança muito em voga atualmente, como aceitação de riscos, ousadia, ambição e inovação.
Como filósofo, Maquiavel é considerado humanista, em virtude do seu posicionamento contrário à ideia de que a sorte e o destino seriam baseados em fatores externos à vida humana. Diferenciava-se, porém, de filósofos como Platão, pois estes tendiam a posicionar a filosofia acima da política, enquanto Maquiavel recusava qualquer ideia que postulasse causas finais ideais.