«— Estás magro, homem! — observou ele, apalpando-me o pescoço, provavelmente com o tacto magistral de quem ajuizava da nutrição dos potros pela fibra atochada e nediez do pescoço. — Deixa-te desse modo vivente, se não aspiras à mumificação. Olha que a natureza fez homens, não fez literatos. O Criador, quando expulsou Adão do paraíso, teve a piedade de lhe não dizer: «Serás escritor!» O que lhe disse foi: «Viverás trabalhando até suar.» Considera, amigo, que é necessário suar para viver. E o escritor não sua: logo, morrerá anãzado, qual te vejo, pobre homem! Saíste das prescrições da natureza; torna sobre ti, e corrige o vício.
— Isto não se corrige — repliquei eu.
— Queres dizer-me que a imaginação é uma espora? Põe cabeções ao espírito; colhe as rédeas; e, se ele teimar, bate-lhe com a cabeça numa pedra. A imaginação que faz novelas é um talento perdido, como os talentos escondidos de que fala a parábola de Jesus. Porque não hás-de tu aproveitar a imaginativa em coisas úteis? Inventa um arado, um moinho, um alcatruz, um esgotador de rios, uma ratoeira de apanhar toupeiras, um visco de desbastar grilos e pardais. Dirige a outra ordem de inventos a tua fantasia, de modo que os movimentos corporais te fiquem desembaraçados, e o ar puro te não vá coado por vidraças aos pulmões. Distende os músculos, agitando-os; exercita as funções respiratórias, aprumando o corpo na posição vertical; regenera o sangue, e verás que ainda és homem… Tenho sincera pena de ti!
— Também eu tenho… — atalhei eu.»